Canhoto

Bruno Marinho de Sousa¹

Quantos canhotos você conhece? Deve ter encontrado alguns poucos na sua memória. Pesquisas indicam que mais de 90% das pessoas são destras, ou seja, escrevem com a mão direita.

Esta prevalência no uso da mão direita ocorre desde os tempos pré-históricos. Cerca de 80% das pinturas rupestres foram feitas com a mão direita. Ainda, os estudos sobre pintura demonstram que não houve alteração, ou mudança no padrão de uso das mãos, em mais de 5 mil anos (de 3000 a.C. a 1950).

Figura 1. Pinturas rupestres da Toca do Boqueirão da Pedra Furada. Fonte: Fumdham

Os canhotos sofreram e sofrem preconceito. Muito deste preconceito é e foi causado por interpretações simplórias de eventos e textos importantes. Vejamos alguns exemplos. Na Bíblia, em Mt 25,41, está escrito: “Então dirá também aos que estiverem à sua esquerda: Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos”. Já no dicionário Aurélio, o canhoto é definido como “inábil, desajeitado”. Em outros idiomas a palavra “canhoto” também possui definições de cunho negativo.

Uma curiosidade, que você deve ter ouvido nas aulas de História. Durante a Revolução Francesa, no século XVIII, os girondinos (alta burguesia) sentavam-se à direita e os jacobinos (pequena burguesia e sans-culottes – populares) à esquerda, em relação à mesa da presidência. Após este evento, partidos políticos que se voltam contra o governo, com um ideal mais popular, são chamados de “Esquerda”. Essa associação da esquerda com a política ficou tão forte que na ditadura espanhola do General Franco (1892 – 1975) não era permitido aos alunos escreverem com a mão esquerda, pois ela era associada com a “Esquerda Comunista”.

No século XIX surgiram algumas teorias para explicar o uso predominante da mão direita. Uma delas, a da distribuição visceral, alegava que os órgãos viscerais estavam mais distribuídos para a esquerda. Isso faria com que o pé esquerdo controlasse o peso do corpo, deixando a mão direita livre gerando uma maior habilidade a ela. Já a teoria da Espada e Escudo, ou Evolução Social, alegava que os soldados empunhavam seus escudos com a mão esquerda, como uma forma de proteger o coração, enquanto a direita ficava livre para atacar com a espada. Após eras de combates, a mão direita ganhou esta maior capacidade manipulativa. Entretanto, nenhuma destas duas teorias faz sentido. A primeira não explica porque os canhotos não têm os órgãos invertidos e a segunda porque o número de canhotos permanece estável através dos tempos.

Depois do conhecimento das funções cerebrais, principalmente das funções hemisféricas, surgiram novas explicações para as diferenças entre destros e canhotos. De modo geral, cada hemisfério é melhor para operar determinadas funções, como a fala. Mas será que o cérebro de destros e canhotos funciona igual? Vejamos esta diferença em relação a fala.

Apesar de talvez você imaginar que o canhoto tenha todas as suas funções mentais invertidas (seria um destro ao contrário), na verdade em 70% dos canhotos as regiões cerebrais responsáveis pela fala estão no Hemisfério Esquerdo. Os outros 30% têm representação bilateral (nos dois hemisférios). Enquanto isso, em 95% dos destros a fala está localizada no Hemisfério Esquerdo. Graças ao fato de parte dos canhotos terem representação bilateral para a fala, eles têm uma chance maior de se recuperar de uma afasia, em consequência de um derrame, já que as suas funções cerebrais são mais espalhadas entre os dois hemisférios.

Uma ferramenta para descobrir a dominância manual das pessoas foi publicada em 1971.  R.C. Oldfield publicou o seu Endinburgh Handedness Inventory (Inventário de Dominância Manual de Edimburgo). Ele é muito popular e é utilizado em vários estudos científicos para descobrir se uma pessoa é destra, canhota ou ambidestra.

Mas como descobrir qual hemisfério domina a fala? Jerre Levy e Mary Lou Reid apontaram que a posição da mão responderia a esta questão. Se você escreve com a mão invertida (acima da linha da escrita), quem controla a fala é o mesmo hemisfério desta mão. Em outras palavras, se você é canhoto e escreve com a mão “torta”, acima da linha, é o seu hemisfério esquerdo quem controla a fala. O mesmo vale para os destros, mas neles é mais raro alguém escrever assim. Esta ideia é controversa e não foi comprovada por outros estudos.

Figura 2. À esquerda está o canhoto Barack Obama com sua mão invertida ao escrever. À direita, um canhoto que não inverte. Fonte: Google.com

Apesar de também termos outros órgãos aos pares, como olhos, ouvidos e pés, eles não possuem uma relação forte com a Assimetria Cerebral, como no caso das mãos. Mas apesar disto, existe uma correlação alta e positiva entre preferência de mão, olho, ouvido e pé!

Sobre a hereditariedade, a chance de um casal de destros ter um filho canhoto é de 2%. Mas se alguém do casal for canhoto, a chance sobe para 17%. Se os dois forem canhotos, a chance pula para 46%. Entretanto, pais e mães canhotos têm mais chances de ter um filho destro (54%) do que canhoto!

Alguns estudos apontam que os canhotos podem ter desordens de imunidade 2,5 vezes maior que os destros e também índice de desordens de aprendizagem até 10 vezes maior! Uma das alegações é que a testosterona diminuiria o crescimento de partes do hemisfério esquerdo durante a vida fetal. Isto resultaria em déficits no desenvolvimento da aprendizagem, com maior incidência no sexo masculino.

Mas estas desordens podem fazer os canhotos morrerem antes dos destros? Vamos ver alguns dados. Em outro estudo controverso, Stanley Coren descobriu que a proporção de canhotos diminui com a idade, em pessoas de 20 anos, há 13% de canhotos, mas aos 80 anos, a proporção é de apenas 1%! Em outro estudo foi encontrado que a mulher vive mais que o homem (77,55 e 71,61 anos, respectivamente). Entretanto a média de vida dos destros é de 75,34 anos contra 66,20 anos para os canhotos!

Segundo alguns pesquisadores, estas diferenças podem ser explicadas por uma maior incidência de patologias nos canhotos, bem como um maior número de acidentes neste grupo. Entretanto, outros pesquisadores apontam que pode ocorrer uma mudança de dominância manual nos canhotos, o que mascararia alguns dados obtidos (muito foram obtidos com entrevistas de familiares após a morte).

Pelo que foi apresentado, você percebe que muito foi estudado em relação aos canhotos. Alguns estudos controversos geraram resultados que ainda precisam ser melhor investigados. Mas o que fica é que num mundo feito para destros, os canhotos não têm muitas opções.

Em geral eles têm que se adaptar ao mundo que dificulta a vida deles. Por isso, ao se aplicar o Inventário de Edimburgo, é muito comum ver canhotos que na verdade são ambidestros. A pressão social não permite que os canhotos desenvolvam plenamente suas habilidades, isso faz com que você veja canhotos que escrevem com a mão esquerda, tocam um instrumento com a direita, penteiam o cabelo com a esquerda, escovam os dentes com a direita e etc.

Figura 3. Ned Flanders com seu Leftortium (Canhotório, em tradução livre). Fonte: Leftorium

O personagem Ned Flanders, do desenho The Simpsons, é canhoto e sofria para usar alguns objetos, por exemplo, uma tesoura. Ned então decidiu criar uma loja só com utensílios “adaptados” aos canhotos. E este tipo de loja existe no mundo real (veja o site aqui). E é um mão na roda para os canhotos, pois torna mais fácil realizar uma série de atividades cotidianas (usar abridor de latas, mouse, etc.).


Atualização: apesar do foco da Dominância Manual quase sempre estar ligado às funções dos hemisférios cerebrais, há alguns estudos que apontam que isso na verdade tem a ver com a Medula Espinhal. (Se teve interesse, leia a reportagem: Ser Canhoto ou Destro pode não ter nada a ver com seu cérebro, na SuperInteressante).


¹: Texto originalmente publicado em blogPercepto, em 11 de março de 2012 ,atualizado em 24/07/18, às 18:41h.

Quer baixar o texto? Clique aqui

Para conhecer mais o assunto:

  • SPRINGER, S. P. e DEUTSCH. D. (1998), “O Enigma do Canhoto”, in: Sally P. Springer e Georg Deutsch, Cérebro esquerdo, cérebro direito (Tradução: Thomaz Yoshiura), São Paulo: Summus, 1998. (Este é um livro bem acessível em sua linguagem e fácil de ser encontrado em sebos).
  • Oldfield, R.C. (1971). The assessment and analysis of handedness: The Edinburgh inventory. Neuropsychologia, 9, 97-113.
  • O que é Assimetria Cerebral?:  Uma introdução ao assunto, em blogPercepto.
  • Curiosidades em português: Mundo Canhoto

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