Mito 3: Neuromania da Neurobobagem

Bruno Marinho de Sousa

Neurodrink, Neuroágua, Neurocomida, Neurosedução, Neuroemagrecimento, Neurocompremeucurso, Neurobobagens…

No texto Mito 1: Nós usamos apenas 10% do nosso cérebro eu comentei sobre esse absurdo que é espalhado por supostos “especialistas”. Agora nesse novo texto vou abordar a Neuromania da Neurobobagem.

A partir da década de 1990 as Neurociências surgiram. Houve muito investimento do governo dos EUA em cima disso e essa década ficou conhecida como a década do cérebro. Mas o que são Neurociências?? Sim, é no plural!

“As Neurociências buscam uma visão multidisciplinar sobre o cérebro e, consequentemente, sobre os nossos comportamentos. Elas fornecem um embasamento científico muito amplo sobre o comportamento humano.” Fonte: Psicologia Catalão

Então, a Neurociência (no singular) refere-se a cada uma das ramificações das Neurociências:

  • Neuroanatomia (focada nas estruturas do Sistema Nervoso Central),
  • Neurofarmacologia (estuda como as drogas afetam o SNC),
  • Neurobiologia (estuda as células e a organização delas no SNC),
  • Neurociência Cognitiva (estuda os mecanismos biológicos da cognicação),
  • Psicobiologia (estuda a relação entre os processos biológicos e funções psíquicas)
  • E por aí vai. Veja uma lista aqui

Já Neuropsicologia, apesar do nome, é um ramo bem antigo da Psicologia. Não surgiu após a década do cérebro, como falei anteriormente. Sua definição pode ser a seguinte:

“A Neuropsicologia é uma especialidade da Psicologia cujo objetivo é o estudo das relações entre o cérebro e o comportamento/cognição. O psicólogo especialista em Neuropsicologia atua no diagnóstico e reabilitação das alterações cognitivas e comportamentais causadas principalmente por disfunções e lesões cerebrais.” Fonte: Hospital Albert Einstein

E a Neurologia é a mesma coisa. Ela existia antes dos 1990 e é uma especialidade da medicina focada nas doenças que afetam o SNC e periférico.

Legal isso tudo, né? Mas como em todo lugar tem gente querendo entrar na onda, o pessoal marqueteiro resolveu usar o termo “NEURO” para tudo, mas TUDO mesmo. Daí você começa a ver capas de livros, cursos, palestras que vendem coisas sem QUALQUER embasamento científico, mas usando o termo “NEURO”.

Dois cientistas italianos lançaram um livro com um nome muito bom: NEUROMANIA. Os cientistas são:  Paolo Legrenzi (Ca’Foscari University, Venice) and Carlo Umiltà (University of Padua).

O ponto mais importante do livro é que eles apontam as limitações dentro das Neurociências, como alguns métodos, limitações das conclusões e o uso de fMRI (ressonância magnética funcional) para “ver” o cérebro em ação. E outro ponto, talvez o mais interessante do livro, é a abordagem sobre que o conhecimento antigo está sendo apresentado como uma novidade, comente porque usam “neuro”, mente ou cérebro na explicação. Mas sem realmente trazer alguma novidade para esse conhecimento antigo com base no cérebro.

Agora que contextualizei para você o status da bobagem, aprenda isso: entender os padrões cerebrais de como funcionam nossos comportamentos não diz tanto quanto parece sobre esses comportamentos. Vou citar uma resposta do neurocientista Raymmond Talis sobre isso:

“Qualquer pensamento tem inúmeras possibilidades de ser realizado dentro da nossa mente e a mesma ideia pode se expressar no cérebro com padrões completamente distintos. Não adianta ler minhas ondas cerebrais para descobrir o que penso. É como descrever a minha jornada a um bar para encontrar com meus amigos nos termos das Leis de Newton, um monte de movimentos e a energia despendida no caminho. Isso não iria mostrar nada sobre meu prazer em ver os meus amigos.“ Fonte: Revista Galileu

Se você não tem formação na área, tome cuidado, é muito fácil a gente comprar uma ideia que parece coerente, que parece “séria”. Hoje em dia se alguém colocar um “NEURO” na frente de algo que quer vender, parecerá que é sério, ajuda a vender. Mas duvide, é um direito seu duvidar. Pergunte, se for curso, quais estudos mostram que funcionam, a formação de quem vai dar a aula.

Por que esse alerta? Porque quando fui fazer doutorado tive que fazer uma pesquisa, aprender o método científico e utilizá-lo. Nós temos que cuidar muito bem das nossas pesquisas (experimentos), cuidados éticos, planejamento, tentamos isolar as variáveis (o que pode interferir nos resultados e não tem a ver com a pesquisa). Daí temos os resultados e eles precisam ser interpretados. E esses resultados são interpretados dentro dessas condições do experimento. É muito complicado extrapolar as conclusões da pesquisa para fora dessas condições.

Depois de terminar de ler esse texto, assista esse vídeo e entenda um pouco do que estou falando:

 

Um exemplo bem simples é a famosa Assimetria Cerebral. É um pouquinho de verdade e muito exagero. Em cima disso que surgem as bobagens: “treine seu cérebro esquerdo”, “você é mais lado direito do cérebro, é muito emocional”, “fulano é racional, usa mais o lado esquerdo do cérebro”. E vários livros, como o Desenhando com o Lado Direito do Cérebro.Quer saber porque o livro é uma bobagem, leia esse artigo: Left Brain, Right Brain: Facts and Fantasies.

Em condições de laboratório é possível perceber diferenças entre os hemisférios cerebrais. Mas boa parte desses experimentos apresentam os estímulos por uma fração de segundo, por exemplo, 0,5 segundos. Após esse tempo já se foi a diferença no processamento da informação. Então enquanto você lê esse texto, não é o hemisfério direito ou esquerdo que está atuando, é o seu CÉREBRO inteiro.

Então a dica é: duvide, questione, principalmente as fórmulas mágicas que as pessoas querem te empurrar falando que você tem um potencial enorme escondido. Se falarem que você só usa 10% do seu cérebro, saia correndo…


Leia mais:

Leia o Apêndice da minha Tese: Assimetria cerebral funcional e sua relação com a excentricidade no campo visual nos tamanhos percebidos em fundos sem e com gradiente de textura, disponível em Teses USP.

Neurobobagem, entrevista com Raymmond Talis para a revista Galileu

The Mind Inside Our Skull, revisão do livro Neuromania publicada na revista científica Science, escrito por Ricardo Basso Garcia.

 

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