Solução de Problemas

Bruno Marinho de Sousa

Achou o texto longo? Baixe e leia depois: Solução de Problemas – Psicologia Catalão


O tempo todo solucionamos problemas (qual caminho pegar, o que comer, quando ler esse texto…). Às vezes passamos por uns maiores, que nos perturbam, em que temos que tomar grandes decisões sobre emprego, relacionamento, saúde e etc. Algumas vezes pode ter sentido que a solução foi satisfatória, ou nem mesmo os tenha solucionado.

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Foto por Startup Stock Photos em Pexels.com

O objetivo desse texto é apresentar uma ferramenta para solução de problemas. Ela não é infalível. O que essa ferramenta pode fazer por você é te ajudar a ver melhor o problema, a pensar melhor sobre ele e, assim, buscar uma forma mais adequada de solucioná-lo. Uma solução pode ser desde resolver totalmente a situação de conflito ou diminuir a carga emocional envolvida.

Mas então, quando saber se estou realmente com um problema? Essa pergunta parece boba, mas é importante. Se você está diante de uma situação que acha problemática e a resolve buscando uma informação da memória, então não era um problema. Por outro lado, se a solução para a situação problemática não tem solução imediata e você tem que parar pensar sobre ela, então você tem um problema. Por exemplo: você foi ao shopping e estacionou seu carro em determinado lugar. Na hora de ir embora não sabe mais onde ele está. Usando sua memória você se lembra onde o deixou. Entretanto, se vai ao lugar onde deixou o carro e ele não está, então você tem um problema, você terá que gastar seu tempo, energia, pensamentos e etc. para resolver isso.

Cada pessoa irá responder deforma diferente a uma situação problemática. Algumas pessoas são bastante proativas, outras se entregam – ou esperam que alguém faça algo. Mas no geral a busca de uma solução dependerá muito da carga emocional envolvida. Por isso, algumas pessoas podem ser ótimas para solucionar problemas no trabalho, porém em casa sempre adiam o enfrentamento da situação de conflito.

A solução de problemas é um tema de interesse bastante amplo dentro da Psicologia. Ela vem sendo investigada desde a década de 1960, passando pelas mais diferentes áreas (escolas, empresas,clínicas, etc.). Dentro da clínica foi desenvolvida a Terapia de Solução de Problemas Sociais.

Você sabe que está com um problema quando surge um desequilíbrio em sua vida, entre o que você quer, deseja (situação atual) e como gostaria que estivesse (situação meta –objetivo). Ao investigar como as pessoas solucionam problemas de forma eficaz, os pesquisadores descobriram 5 processos fundamentais (em outros textos você pode encontrar um número diferente, mas abordam as mesmas etapas). Esses 5 processos são:

Você sabe que está com um problema quando surge um desequilíbrio em sua vida, entre o que você quer,deseja (situação atual) e como gostaria que estivesse (situação meta –objetivo). Ao investigar como as pessoas solucionam problemas de forma eficaz, os pesquisadores descobriram 5 processos fundamentais (em outros textos você pode encontrar um número diferente, mas abordam as mesmas etapas). Esses 5 processos são:
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1. Orientação para o problema,
2.
Definição e formulação do problema,
3.
Levantamento de alternativas,
4.
Tomada de decisões,
5. 
Prática da solução e verificação.

Antes de qualquer coisa, a solução de problemas dependerá da sua motivação. Aqui entram suas reações emocionais, afetivas e cognitivas. Você pode adiar a busca de uma solução por meio de comportamentos de fuga ou esquiva (já explicados em sessão). Na presença, ou simplesmente o fato de pensar sobre o problema, pode gerar reações emocionais desagradáveis (medo, ansiedade, tristeza) e você deixa a busca de solução para depois. Isso te alivia momentaneamente, mas irá gerar um valor afetivo negativo para o problema (frustração, vergonha, culpa…).

Solucionar problemas é um comportamento. E todo comportamento tem uma história. Dessa forma, você pode fugir ou se esquivar da solução porque isso te remete a uma memória (cognição) desagradável. Ou então você não foi uma pessoa que solucionava problemas, sendo que outros faziam isso para você.

Independente do porquê, você precisa ter uma motivação para solucionar o problema. Essa motivação pode vir de dentro (intrínseca) ou por motivo externo (extrínseca). Você deve investigar qual a sua motivação para resolver o problema, se é para acabar com as emoções desagradáveis (parando com a fuga e esquiva), se é para ajudar alguém, ou ambos. Mas sua motivação dependerá de você, para isso faça uma autoavaliação do porque o problema é um problema e como sua vida poderia ser diferente sem ele.

A seguir serão apresentados cada um dos processos envolvidos. Espero que entenda cada um e vá pensando em exemplos da sua vida. Pense em coisas simples primeiro.

1. Orientação para o problema

Em primeiro lugar, você deve reconhecer o problema como tal. Precisa classificar sua gravidade, quando resolvê-lo (urgente ou adiável), suas capacidades e habilidades para lidar como problema e, também, o tempo e energia necessários. Pense nas informações associadas para essas questões. Além disso, tire um tempo para pensar sobre o problema, se concentrar, gastar tempo e energia para buscar uma solução.

2. Definição e formulação do problema

Busque o máximo possível de informações, entenda a história do problema, os aspectos que o fazem ser um problema, tenha clareza e objetividade aqui.

  • Quem faz parte desse problema?
  • Quem pode resolver esse problema? Ou melhor,como alguém (de sua confiança) poderia resolvê-lo?
  • O que sinto em relação a esse problema? Aqui poderá identificar as emoções envolvidas na fuga e esquiva.
  • O que acontecerá se eu não solucionar esse problema?
  • Quando esse problema começou?
  • Quando irei solucioná-lo?
  • Por que começou esse problema?
  • Por que me sinto mal por ter esse problema?
  • Por que não consegui solucioná-lo ainda?

Após pensar e avaliar bem o problema, estabeleça o que é o problema de forma operacional. O que quero dizer com isso? Que você o coloque em termos práticos para que saiba quando encontrou uma solução. Exemplo:

  1. Antes de fazer os processos 1e 2 seu objetivo poderia ser: “Quero ser feliz”. Ora, isso é algo extremamente vago, como você irá saber que chegou lá? O que é felicidade para você? Como essa felicidade se reflete na sua vida?
  2. Depois de fazer os processos 1 e 2 seu objetivo realista poderá ser: “Quero ser feliz, para isso preciso mudar de emprego (não levar serviço para casa), ficar mais tempo com minha família (2horas a mais do que hoje) e viajar mais (2 vezes por ano)”.

Percebeu a diferença? Em a) você não tem clareza para onde ir, como fazer para atingir seu objetivo e muito menos saberá quando chegar lá. Já em b) saberá quando atingirá seu objetivo, as etapas necessárias e pode até mudar seus objetivos durante o processo.

3. Levantamento de alternativas

Aqui você deve seguir 3 princípios:

  1. Princípio da quantidade: levante maior número de alternativas que conseguir para solucionar o problema e, de preferência, as anote num papel.
  2. Adiamento do Julgamento: não avalie as opções, não se preocupe se são boas ou ruins,se serão eficazes, apenas busque alternativas que sejam de alguma forma relacionada ao problema.
  3. Princípio da variedade: levante as mais diferentes opções, não foque apenas nas que ache mais fáceis, ou as que queira fazer, não pense apenas preto e branco, pense em mais nuances para as suas alternativas.

Exemplo: baseado no objetivo estipulado no processo anterior, para ser feliz você precisaria mudar de emprego, ficar mais tempo com a família e viajar. Vamos treinar apenas com a mudança de emprego. As alternativas poderiam ser:

  1. Largar o emprego imediatamente,
  2. Manter-se no emprego até ter o suficiente para me sustentar por um ano,
  3. Buscar outro emprego nas horas vagas,
  4. Contratar um especialista em realocação no mercado de trabalho,
  5. Montar meu próprio negócio,
  6. Mudar meu padrão de vida e ter um emprego com menos responsabilidades (aceitando um salário menor),
  7. Fazer um curso para aumentar as chances de outro emprego,
  8. Mudar de área de trabalho/profissão,
  9. Transformar um hobby, uma atividade de lazer, em profissão,
  10. Virar consultor na minha área,
  11. Ficarem casa apenas cuidando da família,
  12. Voltar para casa dos pais e deixá-los sustentar a mim e a minha família,
  13. Juntar dinheiro suficiente e ficar em casa estudando para concursos,
  14. ….

Observe a lista. Ela segue os 3 princípios: quantidade (13 opções), adiamento do julgamento (não está em ordem de prioridade, nem as julguei como boas ou ruins) e variedade (vai desde largar o emprego imediatamente, ir atrás de outro emprego enquanto se mantém no atual até voltar para casa dos pais).

4. Tomada de decisões

Nesse processo você fará um exercício de imaginação. Você pegará a lista anterior e tentará antecipar as consequências de cada alternativa. Pense nas consequências a curto, médio e longo prazo (quando se aplicar). Julgue os resultados de casa alternativa em relação ao seu bem-estar, o aspecto emocional envolvido, o tempo que será gasto, o esforço e as habilidades necessárias.

Para te ajudar, faça uma tabela como a seguir:

Ao fazer uma tabela semelhante, você terá mais clareza sobre cada alternativa. Faça isso com todas as alternativas que levantou, não tenha preguiça, coloque no papel, com sua letra. Depois você pode fazer uma lista por ordem decrescente a partir da nota maior(que você acha mais eficiente e possível de executar). Por fim, pegue as alternativas com as notas mais altas e anote as etapas para executá-la:

  • Largar o emprego imediatamente: ir até o RH e pedir as contas,
  • Manter-se no emprego até ter o suficiente para me sustentar por um ano: anotar meus gastos, cortar despesas desnecessárias, economizar e guardar o dinheiro na poupança.

5. Prática da solução e verificação

Depois de passar pelos processos anteriores você estará com maior preparo para solucionar o problema. Como disse no início do texto, esses processos não são infalíveis. Eles podem, e irão, te ajudar a lidar melhor com situações problemáticas, especialmente aquelas mais desgastantes, que exijam maior tempo e esforço.

Nesse processo você irá escolhera alternativa que parecer mais adequada para uma solução eficaz e a executará.Tenha foco, prazo e visualize, sempre que possível, como executará a alternativa escolhida. Tenha um Plano B também. Ele pode ser importante para o caso de alguma coisa mudar ou falhar durante o processo.

Outro ponto importante é monitorar a execução. Vá observando se ela está seguindo o caminho esperado, se não está, o que pode ser feito para ficar no caminho? Observe suas emoções, seu desgaste emocional e cognitivo. De preferência anote. Se realmente a alternativa não está sendo possível de executar, tente o plano B.

Após executar a alternativa escolhida, avalie os seguintes aspectos:

  • Eficácia da solução,
  • Bem-estar emocional e cognitivo,
  • Tempo e esforço gasto em todo processo de solução do problema,
  • O que pode ser melhorado,
  • Se seu objetivo inicial foi alcançado,
  • Elogie-se por ter executado a solução.

Exemplo: você definiu 3 objetivos para ser “feliz”. Em nosso exemplo trabalhamos a mudança de emprego. Você optou por manter-se no emprego atual até ter dinheiro para se sustentar por um ano. Então, para isso você visualizou o que deveria ser feito.

Ao executar você pode notar que o prazo é insuficiente ou que não tem como cortar despesas imediatamente. Você pode, por exemplo, manter-se nesse plano, mas associá-lo a busca de outro emprego. Ou quem sabe, até de uma renda extra realizando outro tipo de atividade. Durante a execução você deve avaliar os itens apontados anteriormente para se manter firme no caminho.

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Considerações finais

A ferramenta aqui apresentada não deve ser interpretada de maneira errada. Ela parece ser muito racional, fria e até mesmo difícil ou não prática. Não se engane. Ela busca equilibrar aspectos emocionais e racionais. Você pode achar o problema tão catastrófico (emoção/sentimento) que não vê uma solução racional. Ao colocar no papel os diferentes processos aqui explicados, você pode entender o que te causa tanto sofrimento. As nossas decisões precisam do aspecto emocional. Você precisa visualizar que a solução te trará benefícios ou então reduzirá malefícios.

Outro aspecto fundamental de qualquer aprendizado é a prática. O que apresento aqui para você pode ser muito novo, parecer muito complicado à primeira vista. Se você dirige, aprendeu algo muito mais complicado. Mas praticou até ficar automático. Então, quanto mais praticar o que aprendeu aqui, mais automatizado será, mais fácil ficará para fazer. Conforme praticar, ainda poderá dar sua cara para a ferramenta.

Use esse aprendizado, pratique, incorpore no seu cotidiano. Ensine a alguém. Isso fará com que você fique ainda melhor para solucionar problemas.



Leia mais:

  • Adaptado a partir de: NEZU, A. M.; NEZU, C. M. Treinamento em solução de problemas. In: CABALLO, V. E. (Org.). Manual de técnicas de terapia e modificação do comportamento. São Paulo: Santos Editores, 2007, cap. 22, p. 471-493.
  • Quer o texto em PDF? Clique aqui: Solução de Problemas – Psicologia Catalão


      

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