Será que preciso de terapia?

Bruno Marinho de Sousa

Essa é uma questão de difícil resposta objetiva. Mas antes de respondê-la, vamos a alguns dados importantes.

Dados da Organização Mundial de Saúde (OMS) apontam que no Brasil há cerca de 23 milhões de brasileiros que precisam de acompanhamento em saúde mental. Desses, 5 milhões apresentam transtornos graves e persistentes. Mas ainda fica pior, entre 75 e 85% dessas pessoas não recebem algum tipo de tratamento.
Além dos problemas de falta de mão de obra, especialmente na rede pública, temos um ainda maior: o estigma que existe sobre o tratamento em saúde mental.

Os meios de comunicação ainda insistem em mostrar pessoas que necessitam de ajuda psicológica e/ou psiquiátrica como disfuncionais, incapazes e sem “cura”. Ainda mostram os profissionais da área da saúde mental como pessoas alienadas, estereotipadas e que são “mais loucas” que as pessoas que atendem.

Somado a isso, ainda vem o senso comum com as grandes frases preconceituosas que prestam um desserviço a quem tem um problema:

“psicólogo é coisa de doido”, “fulano tá indo no psicólogo, sabia que não batia bem”, “não vou ao psicólogo porque senão ele vai descobrir meus podres”, “vou ao psicólogo, mas ninguém pode saber…”
– as frases se aplicam também aos Psiquiatras.

Esses fatores só perpetuam o preconceito, mistério e desconhecimento sobre a área de saúde mental.
Então ir ao Psicólogo ou Psiquiatra fica realmente muito complicado. Mas você precisa entender que ir a esses profissionais é normal.
Há estimativas que 10% da população mundial uma vez ou outra irá necessitar de ajuda para lidar com problemas de saúde mental.

Como saber se eu preciso de ajuda? Como definir um comportamento anormal?
Aqui temos problemas diversos, pois a questão vai de filosófica a operacional, passando pela estatística. Mas claro que vou simplificar.

Numa visão estatística, normal é quem se parece com a maioria (a média da população), não se desviando muito. Um homem de 1,75 m no Brasil é normal. Mas um de 2,50 m então seria anormal pelo critério “média de pessoas”. O mesmo vale, por exemplo, para ansiedade. Eu me sentir ansioso antes de falar em público para mil pessoas é normal. Mas sentir ansiedade para ir a uma loja e falar com o vendedor, já pode ser anormal (fora da média).

Então nesse critério, um comportamento anormal seria aquele que se desvia da média (norma). Mas o que define a média? A cultura em que vivemos. Para nós o comportamento de comer carne de cavalo é estranho, às vezes nem sendo cogitado. Por que? Porque nossa cultura definiu em algum momento que isso não faz parte da média de nossos comportamentos. Então na nossa sociedade quem come carne de cavalo tem um comportamento “anormal”.

Mas agora chegamos no ponto principal. Ser mais alto que a média da população, comer carne de cavalo, sentir ansiedade para falar com um vendedor é motivo suficiente para ter que procurar um Psicólogo? Não.

Agora vem o ponto-chave do texto: o comportamento de uma pessoa só necessita de atenção especial quando provocar sofrimento, incapacidade e/ou limitação em aspectos pessoais, sociais, fisiológicos e/ou profissionais, para ela e para quem convive com ela. Quando esses aspectos são afetados, a pessoa pode se tornar infeliz e pouco produtiva.

A Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) e, especialmente a Terapia Comportamental (TC – baseada na Análise do Comportamento), trabalham com a ideia de comportamento disfuncional. Esse provoca sofrimento e prejuízo nas áreas emocionais, profissionais, sociais, comportamentais e de saúde (assim como falei do comportamento anormal).

Sessão de TCC

Dessa forma, a TCC e a TC buscam auxiliar a pessoa a entender e lidar com seus comportamentos disfuncionais. Busca-se entender a função do comportamento para a pessoa e o que o mantém. Assim não é tão importante o diagnóstico (esquizofrenia, TOC e etc.) e sim o funcionamento da pessoa.
Para lidar com isso a TCC e a TC se valem do trabalho em conjunto, entre psicoterapeuta e cliente, para desenvolver comportamentos alternativos, identificar as causas do comportamento e o que faz o comportamento disfuncional se manter. Buscando melhora nos aspectos cognitivos (pensamentos), emocionais e comportamentais.

Mas como saber se você está com algum comportamento disfuncional?
Bem, agora entra o problema da objetividade que disse no início do texto. Não tem uma medida para isso. É você quem sabe da sua vida e você quem decide o que fazer. Há exceções, mas no geral essa é regra1.

Você se sente triste o tempo todo e não era assim? Sente um aperto, uma angústia o constante? Passou a beber demais e sente falta da bebida? Sente o coração acelerado muitas vezes ao dia sem motivo aparente? A vida anda sem graça há uns meses? Perdeu a vontade nas atividades que antes davam prazer?

Essas perguntas não são um teste psicológico, servem simplesmente para você se avaliar. Você se lembra dos dados apresentados no início do texto? Temos um contingente muito grande de pessoas que podem ter problemas reais e que não procuram ajuda, por preconceito e falta de conhecimento.

Então ir ao Psicólogo deveria ser tão comum quanto ir ao médico. São milhões de pessoas precisando de ajuda profissional. Nós, Psicólogos, somos treinados para cuidar de determinados problemas. Mas infelizmente não é assim que aparece nos meios de comunicação e no imaginário popular. E por preconceito, estigma e medos irrealistas, as pessoas não procuram ajuda profissional.


Leia mais:

Leia o Capítulo 1. História e Definições, do livro Psicologia dos Transtornos Mentais, de David S. Holmes. Publicado pela Artmed – Livro fora de catálogo.
Texto da revista Viver Mente & Cérebro: É hora de procurar ajuda?


  1. Uma exceção a sua auto-observação é a recomendação de algum profissional. Por exemplo, você vai a algum médico (psiquiatra, endocrinologista, cardiologista e etc.) e ele te recomenda procurar terapia para ajudar no tratamento. 

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