Aprendizagem – aprendendo pelas consequências

Bruno Marinho de Sousa

  • Por que você faz o que faz?
  • Qual a história dos seus comportamentos?

reflexo-inato2Antes de começar, vamos definir aqui nesse texto que comportamento se refere a tudo que podemos fazer (pensar, lembrar, andar, falar, ler, sentir….). E sugiro que leiam ou releiam o texto Aprendizagem – Associando Estímulos. Nesse texto eu abordei a nossa capacidade de emparelhar um estímulo neutro a uma resposta automática, processo chamado de condicionamento respondente ou clássico. Basicamente seu comportamento surge em resposta a uma alteração ambiental (como se assustar ao ver uma barata…).

Mas essa forma de aprendizagem não explica como adquirimos comportamentos complexos, como você acessar esse site e ler essas palavras, ou falar, comer, planejar o futuro, jogar bola e etc. Aqui entra um outro processo, o comportamento operante. Ele é um “comportamento que pode ser modificado por suas consequências1, em outras palavras, é um processo de aprendizagem em que a consequência de um comportamento determinará sua probabilidade de ocorrer no futuro. Se chama operante porque o comportamento (ou resposta) opera, atua sobre o ambiente.

Quando alguém te diz “Oi, bom dia”, o que você faz? Responde automaticamente “oi” ou você decide se irá dizer oi ou não? Você chegou até esse site automaticamente ou teve que operar sobre seu ambiente para chegar até aqui? (Digitar o site, escolher o que ler, começar a ler…). Se você não dá uma resposta automática e pode decidir se vai ou não emitir um comportamento, então você executa um comportamento operante.

No operante associamos os nossos comportamentos às suas consequências. Vamos a um exemplo prático: você digita no teclado e aparecem as letras que você quer, então por essa consequência, você continua digitando para obter mais letras. É você quem decide se vai ou não digitar e o que digitar.
Então o comportamento operante, grosso modo, funciona assim: você está na presença de um estímulo (objeto, pessoa, sensação…), que vem antes do comportamento, daí você decide qual comportamento evocar (executar). Mas essa decisão será baseada na sua história comportamental com aquele estímulo.

O estímulo que vem antes do comportamento nós vamos chamar de estímulo discriminativo (SD) porque “distingue a situação na qual a resposta tem alta probabilidade de ser reforçada da situação na qual ela provavelmente não será reforçada.” 2

E o que é esse Reforço?
O reforço é a consequência do comportamento que aumenta sua frequência. Então quando um comportamento é reforçado, a chance de ocorrer no futuro, na presença do SD, é maior.

Vamos a um exemplo cotidiano: você acabou de se mudar, não conhece os vizinhos, mas aprendeu durante sua história comportamental (vida) que deve cumprimentar esse grupo de pessoas. Então na presença desses SD (vizinhos) você emite o comportamento “oi, bom dia” devido às consequências que foram reforçadas no passado (ser uma pessoa simpática, cordial, não parecer um chato). Se seu comportamento é reforçado, recendo um “oi, tudo bem?”, as chances dele ocorrer no futuro, na presença desse vizinho (SD) serão grandes. Então a partir disso, vocês começam a ter uma história comportamental.

Vizinhos

Aqui deve ficar claro que ter uma probabilidade maior não quer dizer que irá acontecer. É uma probabilidade maior de que, na presença do SD específico (A), o comportamento (B) ocorra – e não outros (x, y, z…), devido às possíveis consequências (C) (que ocorreram no passado – história comportamental).

A partir desse aprendizado, em situações semelhantes (SD semelhantes a A), você irá emitir o comportamento B, esperando a consequência C. Agora vamos a mais um conceito importante. Esse é bem intuitivo.

Operante
Fonte da foto: Cachorros Fofos

Se numa situação – SD (A), você emitiu o comportamento B e teve a consequência C, em situações semelhantes a “A”, você tem uma alta probabilidade de emitir os mesmos comportamentos, esperando as mesmas consequências C. Esse processo se chama generalização – responder de maneira semelhante a estímulos semelhantes.

Voltando ao exemplo da vizinhança: você se mudou para o bairro X, emitiu os comportamentos de dizer “oi, bom dia” e foi reforçado (recebeu um “oi, bom-dia” de volta – consequência). Mas agora se mudar para o bairro Y. Por generalização, você provavelmente irá emitir comportamentos semelhantes (dizer “oi, bom dia” para seus vizinhos, que são outros SD agora, mas são semelhantes em função). Se houver reforço desse comportamento, você aumenta a frequência, se não houver, você diminui.

Resumindo, as situações em que nos encontramos fornecem a oportunidade para emitirmos determinados comportamentos. Esses terão consequências e é devido a elas que os comportamentos irão ou não se manter. Agora você está em frente ao computador/celular, lendo esse texto, então há uma grande probabilidade de você manipulá-los para continuar lendo (rolando a tela para baixo).

E se você estivesse numa pizzaria, a situação (SD) seria outra, então comportamentos (B) diferentes seriam evocados (cortar a pizza, mastigar…) a partir de sua história comportamental com essa situação. Os comportamentos relacionados a comer pizza se mantém porque foram reforçados (C). E assim ocorre em cada situação que enfrentamos. Entretanto, quando estamos numa situação totalmente nova, não sabemos como nos comportar. Por que? Porque não temos história comportamental (comportamentos a serem evocados) nessa situação. Então teremos que aprender como agir. Mas isso é para outro texto.


Aprenda mais:

Nesse texto tomei liberdade para utilizar conceitos, de forma simplificada, que são extremamente bem estudados pela Análise Experimental do Comportamento. Se quer entender melhor cada um deles, leia:
1. Apostila em pdf: Curso de Introdução à Análise Experimental do Comportamento, de Olavo de Faria Galvão e Romariz da Silva Barros;
2. Livro: Princípios Básicos de Análise do Comportamento(link para o primeiro capítulo)
3. Livro: Aprendizagem: Comportamento, Linguagem e Cognição, de Charles Catania.


  1. Ver item 3 acima. 
  2. Ver item 1 acima. 

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