Epilepsia

Bruno Marinho de Sousa

Imagine alguém começando a parecer ausente, de repente cai no chão e começa a se contorcer, com contrações por todo o corpo. O que você faria? Como você explicaria isso?

No passado e, infelizmente ainda hoje, muitas pessoas não entenderam/entendem o que ocorre e inventaram/inventam explicações mais diversas para isso. Por exemplo, possessão espiritual, castigo divino, fraqueza, passam a evitar a pessoa por achar que isso é contagioso, fazem piadas e etc. Mas saiba que todos nós podemos ter uma crise.

Vamos entender do que se trata isso? Assim você pode perder qualquer medo, receio ou preconceito que tenha e, melhor ainda, saiba agir se alguém próximo a você passe por algo assim. A primeira e mais importante recomendação é:

Se houver alguma crise, procure orientação médica para uma avaliação do motivo. A especialidade que trabalha com Epilepsia é a neurologia.

xrke6dthhbvuehxncwy8ydpqO nosso cérebro a todo momento lida com um número muito grande de informações. Pare um momento e preste atenção nos sons do ambiente, nas luzes, nas sensações do seu corpo e etc. Essas informações tem que ser processadas a todo momento, por isso, apesar de ter cerca de 2% do peso corporal, o cérebro gasta 20% da nossa energia.

Mas apesar de parecer ter uma capacidade infinita de processamento, o cérebro consegue lidar com um número limitado de atividade neural ao mesmo tempo. E essa atividade é feita por meio de atividade elétrica e bioquímica nos neurônios. Isso mesmo, atividade elétrica! E os nossos neurônios tem duas propriedades básicas e fundamentais (é uma simplificação grosseira):

  1. Excitatórias: ativam os neurônios, transmitindo sinais de um para o outro,
  2. Inibitórias: inibem, encerram os sinais entre os neurônios.

Então, o que a epilepsia tem a ver com isso?
Primeiro, vamos defini-la: trata-se de uma condição neurológica crônica grave que é marcada pela crise epilética. É um grupo de condições com diferentes manifestações que dependem da parte afetada do cérebro, da idade, das causas, da forma como a convulsão se espalha.

Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), a Epilepsia afeta cerca 50 milhões de pessoas no mundo e de 1 a 2% da população brasileira (2 a 3 milhões de pessoas!). E cerca de 50% dos casos começam na infância/adolescência e não tem causa identificada. É a condição neurológica mais comum.

A epilepsia é uma doença neurológica e não mental!! 

O que provoca a crise convulsiva é o comprometimento da inibição neural durante a crise, espalhando a atividade neural para diferentes partes do cérebro, ou até mesmo para ele todo. Há então uma sincronização prejudicial dos neurônios que provocam uma “tempestade cerebral“.

Para caracterizar a epilepsia, as crises não podem ocorrer: na presença de febre ou infecções cerebrais (convulsão febril não é epilepsia). Além disso, apenas uma crise no decorrer de muito tempo não caracteriza a epilepsia.

O que são as crises?
A crise convulsiva é de curta duração, em que o cérebro deixa de funcionar de maneira adequada – provoca descargas elétricas excessivas. Toda crise tem começo, meio e fim e duração entre 1 a 3 minutos. E existem as crises do tipo parcial e generalizada:

crisefocalouparcialParcial: afeta alguma/algumas regiões do cérebro, não viram uma “tempestade”, tem duração de alguns segundos e a pessoa pode ficar consciente. Os sentidos podem ficar alterados (visão, olfato, paladar…);
Generalizada: afeta o cérebro inteiro (os dois hemisférios – lados), é a crise “típica”, em que a pessoa cai e tem espasmos musculares (solavancos) e ausência (o olhar pode ficar fixo, mas a pessoas está inconsciente).

Exemplo de Eletroencefalograma de pessoas acometidas pelos tipos citados de epilepsia:

EEG-Epilepsia

Antes das crises algumas pessoas podem experimentar a Aura. É um momento anterior à crise, uma espécie de aviso. Nesse momento a pessoa pode sentir uma forte alegria, plenitude e satisfação com a vida (leia o relato ao final do texto).

Em geral essas auras ocorrem quando a epilepsia é do lobo temporal, que se trata de uma região de processamento de diferentes funções, como auditiva, visual, linguagem, memória e emoção. Sendo que sua ativação descontrolada pode explicar a plenitude experimentada na aura.

Aura-Darín

No filme A Aura, Esteban Espinosa (Ricardo Darín), sofre de Epilepsia e tem a aura antes de suas crises.

Quais as principais causas da Epilepsia?  As causas mais comuns são:

  • Neurocisticercose
  • Traumatismo crânio-encefálico (pancada ou lesões na cabeça),
  • AVC (acidente vascular cerebral),
  • Em crianças: má formação cerebral e outras doenças,
  • Adolescentes: abuso de drogas.

O tratamento é feito com uso de medicação específica que controla as crises (não vou citá-los, caso precise, procure um médico). O tratamento cirúrgico somente é feito se a medicação não responder bem.

E qual o papel do psicólogo numa doença neurológica??
Você leu que enfatizei que a epilepsia não é um doença mental, mas sim neurológica. Então o psicólogo tem duas formas de trabalho, como:

  1. Neuropsicólogo dentro de uma equipe multidisciplinar poderá avaliar as possíveis sequelas da epilepsia nas capacidades cognitivas da pessoa (como processa a informação). Se a pessoa for submetida a uma cirurgia, também deve ser avaliada antes e depois, para haver um planejamento adequado para a reabilitação.
  2. Psicólogo Clínico poderá trabalhar outros aspectos, como educar e pessoa e a família sobre a epilepsia, trabalhar o que a pessoa pode fazer, aprender a lidar com o estigma e o preconceito. Infelizmente isso ainda existe e é forte.
  3. Outras formas: em escolas, empresas, hospitais, mas com um trabalho semelhante ao clínico (leia mais em Epilepsia Brasil).

E como proceder quando uma pessoa tiver uma crise epilética?
Em linhas gerais: você deve manter a calma e auxiliar a pessoa para que ela não se machuque. Se for uma crise em que a pessoa caia, apoie a cabeça da pessoa em algo macio, pode ser até sua perna, vire a pessoa de lado e espere passar a crise. Quando a pessoa recuperar a consciência, converse com ela, veja se ela está bem. Faça ela esperar alguns minutos até tentar se levantar. A crise provoca um gasto energético muito grande devido a contração muscular. Assista o vídeo a seguir para ter uma noção ainda melhor de como proceder:

Sobre a Aura:
200px-dostoevskyO grande escritor Fiodor Dostoiévski sofria de epilepsia e tinha as “auras” antes de suas crises. Ele fez relatos detalhados e vívidos de como são as auras. No livro O Idiota, ele relata uma aura do personagem Míchkin:

“…Nesses instantes rápidos como um relâmpago, o sentimento da vida e da consciência se decuplicavam nele. Seu espírito e seu coração se iluminavam com uma claridade intensa; todas as suas emoções, todas as suas dúvidas, todas as suas preocupações se acalmavam ao mesmo tempo para se converterem numa serenidade soberana, feita de alegria luminosa, de harmonia e de esperança, em favor da qual sua razão se elevava à compreensão das causas finais. (…) Estes instantes, para defini-los numa palavra, se caracterizavam por uma fulguração da consciência e por uma suprema exaltação da emotividade subjetiva. Se nesse segundo, isto é, no último período de consciência antes do acesso, ele tivesse tempo de dizer a si mesmo clara e deliberadamente: ‘Sim, por este momento dar-se-ia toda uma vida’, é porque, para ele, este momento valeria de fato toda uma vida”. (Fonte: Viver Mente & Cérebro)


Mais informações:

Epilepsia Brasil
Liga Brasileira de Epilepsia – LBE (Mitos e preconceito sobre Epilepsia)
Associação Brasileira de Epilepsia

Fonte das imagens na ordem em que aparecem:  ThingLink – Cérebro. Psiquiatria e Toxicodependência – Tipos de Epilepsia, Likareissinger – EEG e Epilepsia, Adorocinema – Ricardo Dárin, Wikipedia – Dostoievski

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