Atenção

Bruno Marinho de Sousa

Preste atenção!!!

Você está andando pela rua tranquilamente sem olhar para alguma loja específica. De repente seu olhar é atraído para uma vitrine. Ou então, você está num bar assistindo a um jogo de futebol e, de repente, seu olhar sai da TV e segue alguém ou algum objeto.

O que atraiu seu olhar para esta vitrine? O que atraiu seu olhar para fora da TV? Por que isso aconteceu? Qual o fenômeno mental que faz com que sejamos atraídos para algumas coisas?

O fenômeno por trás desta seleção da informação ambiental é a atenção. Todo mundo tem noção do que ela é. Mas uma das melhores definições é a do psicólogo William James (1842-1910). Ele diz que a atenção “…implica na retirada de algumas coisas a fim de lidar efetivamente com outras”.

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Figura 1. William James. Um dos grandes nomes dentro da psicologia. Fonte: Wikipedia

Em outras palavras, a atenção direciona nossos recursos sensoriais e cognitivos para processar melhor alguma parte ou objeto do ambiente. Milhões de cones e bastonetes são estimulados quando olhamos para uma paisagem. Engenhosamente o sistema visual não irá processar toda a informação que chega. Ele já começa a “filtrar” ou selecionar a informação a partir da retina. Fazemos isto colocando o objeto que queremos ver em foco, o direcionando para a fóvea. Esta parte da retina processa a informação em detalhes e cores (leia mais aqui). Na retina a fóvea recebe um processamento desproporcional em relação ao que esta fora dela, causando uma “magnificação” da informação no cérebro.

Difícil? Em outras palavras, colocamos os objetos na fóvea porque o cérebro irá processar a informação para a qual é melhor equipado! A atenção foi, e ainda é, um modo eficaz de nosso cérebro poupar energia e não se sobrecarregar, tendo desta forma um grande valor evolutivo para a nossa espécie. Como perceberam, vamos nos focar na atenção visual, mas ela acontece para os outros sentidos também.

O que mais chama atenção no nosso sistema visual é a saliência do ambiente ou dos objetos. Esta saliência é a característica física, como cor, brilho, contraste ou orientação, que se destacam. As áreas com alta saliência são facilmente notadas, veja a figura abaixo para entender melhor.

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Figura 2. Cena do filme Irreversível. Nesta cena temos várias características uniformes. Por isso a figura da mulher em seu vestido champagne (ou pérola) se destaca do fundo e chama nossa atenção. Isto é a saliência. Fonte: AdoroCinema.

A atenção possui algumas características ou subdivisões da atenção. Uma das mais conhecidas é a atenção dividida.

A atenção dividida nada mais é que prestar atenção a diferentes coisas ao mesmo tempo. Ela limita sua capacidade de processar as informações quando o mesmo sistema é dividido. Por exemplo, você pode ler este texto enquanto ouve música, mas não conseguirá dirigir e ler porque ambas as atividades requerem o mesmo sistema (o visual, no caso). Isto parece óbvio, mas imagine quantas pessoas você já viu no trânsito dirigindo e respondendo mensagem/SMS no celular…

 

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Figura 3. Lemmy Kilmister, baixista e vocalista do grupo Motörhead. Assim como Lemmy, vários músicos têm que dividir seus recursos atentivos entre cantar e tocar o instrumento. Fonte: Digformusic.

A contraparte da atenção dividida é a atenção seletiva. Ela é o foco que você dá em objetos específicos enquanto ignora outros. Um exemplo clássico é o do vídeo abaixo. Mesmo se achar que conhece o efeito, assista:

 

 

 

 

Vídeo 1. Neste vídeo você deve contar quantos passes são dados pelas pessoas vestindo camiseta branca. Preste muita atenção nos passes. Este número será importante depois.

Por favor, continue somente após assistir o vídeo.

Nós pensamos que nossos olhos são como câmeras, que captam tudo ao nosso redor. Mas este vídeo demonstra que não é bem assim. Talvez você tenha sido um dos que não tenham percebido o gorila que aparece bem no meio da cena. Este já é um efeito clássico dentro da psicologia, conhecido como MonkeyBusiness Illusion. Ele serve para demonstrar que nosso sistema visual não é consciente (ou processa) tudo que acontece. Se você já conhecia a ilusão do gorila, talvez não tenha notado a mudança de cor da cortina, apesar dela ocupar boa parte do seu campo visual.

Ainda com este vídeo podemos explicar a cegueira por desatenção (Innatentional Blindness). Esta cegueira é a falha que você teve em ver o gorila aparecendo ou a cortina mudando de cor. É a falha em perceber o objeto que você não prestou atenção, mesmo ele estando praticamente na ponta do seu nariz!

No próximo vídeo você será testado em outra faceta da atenção. Prossiga a leitura somente após assistir o vídeo.

 

Vídeo 2. Preste atenção na conversa entre as mulheres. Para mais detalhes, leia o texto abaixo.

Por favor, continue somente após assistir o vídeo.

Conseguiu ver alguma mudança na cena do vídeo? Depois da explicação ficou bem mais fácil, não é? Se não viu, foi por causa da Cegueira para Mudança (Change Blindness). Ela ocorre quando você não percebe mudanças numa cena. Outro exemplo comum deste fenômeno são os erros de continuidade em filmes. Numa cena um ator aparece com uma camisa de uma cor e quando muda o ângulo da mesma cena ele está com outra.

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Figura 4. Moe Szyslak (Os Simpsons). Acima ele segura uma garrafa com um rótulo diferente da figura abaixo. Este erro foi proposital. Fonte: WarminGlow. Ao lado, cena do filme SimplesmenteAmor. Na continuação da cena há vários objetos marcados que não estavam na cena anterior ou mudaram de posição. Fonte: Robots.

Esta falha na percepção de mudanças lança luz sobre outro problema da nossa percepção e até mesmo da nossa consciência. Como percebemos o mundo de forma coerente e coesa? No texto A Luz e o Olho falo um pouco disso. Pela figura a seguir você pode notar que as diferentes características de um objeto são decompostas e processadas em diferentes regiões cerebrais. Depois tudo é unido numa representação única na consciência.

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Figura 5. Esquema da formação da imagem pelo cérebro. A imagem da joaninha é processada por diferentes partes do cérebro e depois “montada” em uma única imagem. Fonte da imagem: eyemakearte.

O Biding (algo como ligação, amarração) é uma das funções da atenção que nos ajuda a unir todas as características do ambiente. Ele sincroniza os diferentes grupos de neurônios que processam as características (cor, forma, etc.) do ambiente criando assim uma percepção coerente do mundo.

Então quando prestamos atenção a um objeto o tornamos consciente e ainda conseguimos perceber suas características mais sutis. Mas o biding seria apenas uma parte da explicação desta consciência do mundo.

Aqui selecionamos apenas alguns pontos importantes da atenção. Nos livros que indicamos você encontrará outros pontos de vista e teorias, como atenção pré-consciente, divisão da memória e sua relação com a atenção, etc.

Quer baixar o texto? Clique aqui. Texto publicado no blogPercepto.


Se quiser aprender mais:

  • Goldstein, B. E. Sensation and Perception. 8ª Ed. California: Wadsworth Cengage Learning, 2010.
  • Sternberg, R. J. Cognitive Psychology. 5º Ed. California: Wadsworth Cengage Learning, 2009.
  • Schiffman, H. R. Sensação e Percepção. 5ª Ed. Rio de Janeiro: LTC, 2005.

Imagens (ordem do texto): William James (Wikipedia), Irreversível (AdoroCinema), Lemmy Kilmister (DigForMusic), Moe Szyslask (WarmingGlow)/Simplesmente Amor (Robots) e Formação da imagem (EyeMakeArt)

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