Psicanálise, críticas e fraudes de Freud

Bruno Marinho de Sousa

Para as pessoas leigas os psicólogos e as psicólogas usam divã, trabalham o inconsciente e buscam na infância muitas das causas do nosso comportamento atual. A imagem de um terapeuta barbudo com um charuto é famosa e associada com a terapia.

fredu imagemBem, realmente Sigmund Freud foi um pensador bastante famoso e influente. Em sua época não havia muitas explicações sobre o funcionamento mental. A sua Psicanálise (existem outras formas) conseguiu dar, para a época, uma explicação dos processos mentais.

Entretanto, seus pressupostos teóricos são de difícil análise científica devido à falta de operacionalização. Isso quer dizer que é difícil de ser testada empiricamente, replicada e analisada sua relação causal. Dessa forma, sua teoria se autoexplica muito bem, mas o olhar científico, externo, tem dificuldade de avaliar sua eficácia.

Curiosidade: “Não há nenhuma prova de que os seus resultados sejam eficazes”. Essa é uma frase de Sophie Freud, neta de Sigmund Freud, sobre a Psicanálise.

A questão de eficácia em Terapia gera acalorados debates acadêmicos. E, se você não estuda Psicologia, talvez não saiba que existe uma briga ideológica dentro das universidades e faculdades por causa disso, por exemplo, entre psicanálise e Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC). Como diria um amigo meu: “parecem facções”.

Isso gera um problema grande porque em vez de melhorar a Psicologia, pode gerar confusão. Imagine o cenário: os alunos acabam de entrar no curso, escutam alguns professores falando mal de outras abordagens psicológicas. A partir disso os alunos aprendem a reproduzir esse discurso e, como eu disse em outro texto, boa parte dos cursos não tem diversidade de abordagens então eles passam a acreditar nisso.

Mas qual o motivo desse texto?

freud

Apresentar alguns fatos sobre a obra de Freud. Um livro lançado no ano passado aponta algumas peculiaridades pessoais e falhas do trabalho de Freud: “Freud: The Making of an Illusion”, em tradução livre: “Freud: A criação de uma ilusão”. O livro se baseia em documentos, ou seja, tem um embasamento para as críticas, para as falhas no trabalho de Freud.

São várias as críticas, como ele apontar os benefícios do uso da cocaína para tratar dependência em morfina usando apenas um caso para isso. E, mesmo assim, esse caso piorou e ele não relatou esse fato. Na verdade acabou fazendo o oposto, por ter recebido ajuda de uma empresa farmacêutica.

Geralmente a TCC é acusada de não ser “humana”, ser técnica. Na biografia é apontada vários comportamentos não muito “humanos” de Freud, como uma carta para a ex-namorada de um cliente que suicidou, seu apego ao dinheiro, omissões de falta de eficácia de tratamentos e etc. Mas lembrem-se, isso tem a ver com o que Freud fez, não vale para os outros profissionais.

Vamos agora para outros aspectos da vida profissional.

Há um caso famoso dele: “O homem dos lobos”. Esse caso é citado como exemplo de sucesso terapêutico. Freud alegou que o tratamento durou 4 anos e meio. Mas pesquisas posteriores mostraram que a pessoa ficou em tratamento por 60 anos! E Freud sabia disso, porém não relatou.

Mas as críticas contra a Psicanálise não são recentes. Em 1958 Allen Wheelis (um psicanalista) publicou um livro argumentando que ela (psicanálise) parou de funcionar porque o americano havia mudado. Na época de Freud o povo americano não sabia explicar seus sentimentos, como a tristeza. Então a psicanálise ofereceu isso. Com o uso de outras abordagens isso mudou, havendo novas explicações e novas formas de tratamento.

O que os novos documentos sobre Freud mostram é muito importante para o debate na Psicologia e Tratamento em Saúde Mental. Como muito do corpo teórico da psicanálise foi alicerçado nesses casos que ele publicou e são considerados de sucesso, algumas coisas ficam em aberto agora.

Como disse em outro texto, dentro da TCC nós usamos o método científico e “nós nos preocupamos em saber se nossa forma de trabalho é eficaz ou não, buscamos sempre nos aperfeiçoar”. Para isso nos baseamos em pesquisas, no acúmulo de conhecimento e não aceitamos a “opinião” de autoridades sobre o assunto sem ter uma base sólida de evidências para isso. E até isso é motivo de críticas!!! Observem que citar fontes é tão importante que até aqui nos textos do blog eu faço isso.

Mas isso quer dizer que a Psicanálise está acabada? Não. Primeiro porque muitos psicanalistas já estavam cientes disso e a atualizaram. E também porque ela funciona de alguma forma. Como a Análise do Comportamento explica, o comportamento é reforçado pelas consequências. Se ir ao psicanalista é bom para alguém (alívio o sofrimento, faz a pessoa entender seu comportamento), ela vai continuar a existir porque os profissionais continuarão trabalhando com ela (lei básica de mercado).

A grande questão que fica é mais ética: por que as pessoas criticam as outras abordagens e não usam esse olhar crítico para questionar seu próprio trabalho? Por que vários professores e profissionais gostam de usar frases do tipo:

  • “A TCC não vai nas causas do problema”.
  • “A TCC é superficial”.
  • “Não se usa mais TCC” (acho essa uma das melhores, pois ao falar isso alegam que a Universidade de Harvard está errada…).
  • “A TCC é um conjunto de técnicas largadas”.
  • “O método científico positivista serve aos ideais capitalistas” (irônico porque Freud era europeu, capitalista e no livro eles apontam seu amor por dinheiro).
  • “Os alunos não andam gostando de psicanálise por não ter inteligência para entender a psicanálise” (essa eu ouvi em sala de aula).

Claro que são opiniões de pessoas isoladas. Mas são pessoas que estão formando outros profissionais. Isso gera um problema ético muito grave, uma vez que até mesmo um representante do Conselho de Psicologia fez piadinha com a TCC numa palestra para alunos em formação (eu estava presente).

Um dos livros que citei é de 1958, o outro saiu ano passado. Ou seja, as críticas são de longa data. Mas antes que pense que estou tendo o mesmo comportamento das pessoas que crítico, que fique claro: muitos psicanalistas são sérios e críticos sobre seu trabalho, buscando melhorar sua prática e sua teoria e não fazem esse tipo de desserviço para a Psicologia. Dúvida? Leia mais aqui. Aqui estou apontando evidências, não são minhas opiniões.

A questão que fica é: o que a Psicanálise aponta sobre o comportamento de criticar outras abordagens e não olhar para si mesmo? Seriam desejos inconscientes pelas outras abordagens?


Leia mais:

Imagens: NYTimes.

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