Diabetes: Por que é tão difícil cuidar?

Bruno Marinho de Sousa

modelo-cognitivo

Quando a gente fica triste, pensa em algo, sente a tristeza e fica desanimado. Lembra de alguém que a gente perdeu, a lembrança deixa triste e dá aquele aperto no peito, até vontade de chorar.  Quando alguém conta uma piada engraçada a gente sorri (emoção) e dá risada… Isso acontece porque quando estamos numa situação, pensamos, sentimos e fazemos algo e isso tem uma consequência. Lembram do modelo cognitivo?

Eu trabalho com pessoas que querem perder peso. Elas têm muito em comum com quem tem diabetes. A semelhança está no fato de que elas sabem que tem que controlar o que comem, sabem que tem que fazer exercício, sabem que se não cuidar não vão emagrecer e nem se manter no peso, mas mesmo indo ao médico, ao nutricionista, não fazem o que precisam.

Quem tem diabetes é muito semelhante a quem quer perder peso: sabe que tem que cuidar da alimentação, fazer exercícios e, quando necessário, tomar remédio, mas muitos não seguem o tratamento…

O que impede de seguir as recomendações é o lado emocional. É o que a gente sente quando tem que diminuir ou parar de comer o que gosta, quando tem que começar a fazer exercício. Fazer exercício é terrível para quem não tem o costume, tem uma vida sedentária.

emotions

Mas para quem tem diabetes é pior ainda porque é questão de vida ou morte. Daí vem choque emocional, saber que tem um problema que necessitará de cuidados para o resto da vida. Que terá que mudar o estilo de vida, o jeito de comer seu e da família (sim, ela faz e tem que fazer parte do tratamento). Que vai ter que ir em festas, aniversários, casamentos, reuniões e não vai poder comer o que quer. E para piorar, diabetes não tem sintomas, pode ficar sem cuidar que não sente nada, mas o corpo está ali, ficando mais doente.

Segundo um estudo da Universidade de São Paulo (USP), quando descobre a doença, tem gente que sente:

  • Revolta, mágoa, resistência, acha que o mundo acabou,
  • Restrição, privação, imposição,
  • O tratamento é algo aversivo, negativo e não aceita que tem diabetes,
  • Frustração e Conflito (impotência X esperança),
  • Ansiedade, preocupação, sofrimento,
  • Descontrole, desânimo e até culpa!

E se sente isso tudo, como que vai seguir a dieta recomendada? Eu, por exemplo, trabalho com as pessoas que querem emagrecer que não devem falar que estão de dieta. Faço isso porque a palavra dieta é condicionada (associada) a coisas ruins (raiva, ódio, fracasso, restrição). Então a pessoa deve falar somente que não quer comer algo e não que está de dieta. No caso do diabetes, basta seguir a mesma coisa. E só usar o diabetes como explicação em último caso. Ninguém com bom senso vai insistir.

Conheça a Lista de textos do blog Psicologia Catalão

Por que não falar que está de dieta? Porque o que a gente pensa, faz a gente sentir alguma coisa e isso afeta o que fazemos. Se a gente fala (pensa) que está de dieta, sente algo ruim, daí desanima mesmo a fazer a dieta! Exagerando, é como falar que está com dor de dente…

Outro ponto importante para se manter no tratamento é saber o porquê tem que cuidar da alimentação, depois o porquê tem que tomar os remédios e fazer exercícios. Isso tudo é fornecido pelos médicos, nutricionistas e demais profissionais envolvidos. Quando você entende cada etapa do tratamento, fica mais fácil entender sua lógica e a sua importância.

Da parte da Psicologia, é importante trabalhar as questões emocionais que podem sabotar o tratamento. E, principalmente, depois entender o porquê você quer se cuidar. Você quer se cuidar para quê ou para quem? Você quer se cuidar para:

  • ter uma vida com mais saúde?
  • poder brincar com os netos?
  • não dar trabalho para os outros?
  • poder fazer as coisas do dia a dia sozinha?

O que você ainda quer fazer da SUA vida?

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Sabendo do porquê quer se cuidar, ajuda a entender e ter motivação para se cuidar. Agora vem outra questão: é muito difícil começar a fazer alguma coisa nova, criar um novo hábito. Isso é ainda mais difícil para quem já tem mais idade, viveu muito, já acostumou a comer o que gosta, o que quer. E começar a fazer exercício para quem não tinha o hábito é mais difícil ainda.

Uma coisa que pode ajudar muito é adaptar uma forma de acompanhamento feita pelo Hospital do Coração de São Paulo. Eles ligam para verificar se a pessoa segue a dieta, faz exercícios e toma os medicamentos1. Então, baseado nisso, você pode pedir alguém para te ajudar (parente, amigo, profissional de saúde). Vamos a um exemplo. A pessoa deve te ligar todo dia para:

  • para perguntar da alimentação e dos exercícios,
  • para lembrar de tomar o Diamicron antes do almoço e já separar o Glifage pra tomar depois,
  • Todo dia ligar umas 17:30h e falar que tá na hora da caminhada.

Pode fazer isso um mês, depois faz de dois em dois dias, depois passa pra três em três, depois liga ou conversa só no fim de semana pra saber se tomou todo dia. Deu certo, passa a fazer isso só uma vez por semana por uns meses até virar hábito (costume). Não deu certo, continua ligando todo dia. Você sabe mexer no celular? Pode então colocar para despertar todo dia na hora do remédio e do exercício.

Ainda sobre o papel do psicólogo, para trabalhar o lado emocional você tem que parar de mentir pra você mesmo que sabe se controlar, que vai dar conta, que a doença não é assim tão perigosa. Ela é sim muito perigosa, e ainda é traiçoeira. Você não sente nada, então de repente ela te ataca, igual uma cobra que estava ali na moita, só te esperando passar.

cobra escondida

Então vamos resumir, tudo:

Você descobriu que tem uma doença que precisa de cuidados diários para o resto da vida, o diabetes. Para manter a saúde, pra controlar a doença não tem segredo, você tem: que cuidar da alimentação, fazer exercício e, se for seu caso, tomar remédio. E sua família tem que fazer parte disso também.

Por que você não consegue: porque você não aceita a doença, você mente pra você mesmo que não precisa se cuidar, que vai dar conta sem ajuda, ou pior, você sente raiva de ter a doença, de ter que cuidar disso todo dia, de não poder comer mais o que quer…

Para ajudar no tratamento, você tem que descobrir porque é importante para você cuidar da doença? Depois que descobrir, tem que aceitar que é pro resto da vida. E então usar alguma técnica ou ferramenta para não esquecer de se cuidar. Eu sugiro que achem alguém para ligar para vocês todos dias, depois ir diminuindo até vocês acostumarem a fazer isso. Daí pode ficar mais fácil se cuidar.


saiba mais:

Imagens: Emoções (TinyBuddha), Idosos (WellstreetFitness), Cobra (Contilnet).


  1. Veja reportagem sobre o Hospital do Coração clicando nesse link: Bem Estar – Monitoramento ajuda na adesão ao tratamento 

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