Imagine aquela pessoa que você conhece que está bem de saúde, mas qualquer pontada, acelerada de coração, começa a se preocupar demais. Ouve alguém falar que tem a doença X e começa a se preocupar de ter a mesma doença. Consultas médicas, exames, nada confirma o problema de saúde. Mas quanto mais a pessoa “estuda”, mais ela acha que tem o problema e confirma o que tem. Não adianta argumentar….
Esse é o ciclo da hipocondria, hoje classificada formalmente como Transtorno de Ansiedade de Doença. A busca obsessiva pela segurança é, na verdade, o combustível que mantém a fogueira da patologia acesa.
Agora outro exemplo. Imagine outra pessoa que acha que suas interações sociais são conspirações silenciosas para atacá-la de alguma forma. Essa pessoa conta, com riqueza de detalhes, o olhar de desdém do cobrador do ônibus, o riso abafado dos colegas de trabalho no corredor, a curtida “irônica” no Instagram e a mensagem de texto do irmão que, embora neutra, foi interpretada como uma provocação porque tinha uma palavra “X”. Não adianta argumentar, pra pessoa é provocação.
Esses dois exemplos são clássicos do Viés de Confirmação. Eu usei dois exemplos mais “intensos”, mas não se engane achando que é só em casos extremos que ele ocorre. O Viés de Confirmação está acontecendo a todo momento conosco, da escolha do celular até a política.
Viés de Confirmação, Heurísticas e Atalhos Mentais
O Viés de Confirmação enquadra-se diretamente na categoria das heurísticas, especificamente associado ao que a Psicologia Cognitiva chama de processamento heurístico ou atalhos mentais. Vamos entender esses nomes complicados:
- Heurísticas: São regras simples, informais e quase automáticas que o cérebro utiliza para tomar decisões rápidas sem gastar recursos cognitivos excessivos. São atalhos mentais pra economizar energia.
- O Enquadramento: O Viés de Confirmação surge quando essa heurística falha. O cérebro, motivado a manter as coisas simples e a se sentir bem consigo mesmo, restringe a amostragem da informação. Ele realiza uma busca e uma memória seletivas, coletando apenas os dados que dão suporte à sua tese e ignorando o resto.
Em outras palavras: o viés de confirmação é uma das Distorções Cognitivas mais prevalentes e documentadas pela Ciência Psicológica. E é muito comum no atendimento psicoterapêutico. Trata-se da:
tendência humana sistemática de buscar, interpretar, memorizar e conferir maior peso a informações que sustentem e validem crenças pré-existentes, enquanto, paralelamente, negligencia-se, subestima-se ou ignora-se evidências que as contradigam.
Se você me acompanha, já sabe que que a mente humana opera sob um princípio de economia de energia. Mudar de ideia “dói” (causa sentimentos negativos) e consome recursos energéticos. Portanto, o cérebro (nós) prefere deformar a realidade a ter que reconstruir sua própria realidade com novos dados.
O Viés de Confirmação atua como um filtro invisível: diante de dados ambíguos, contraditórios, você enxerga exatamente o que já esperava ver, ou melhor, o que quer ver. Na prática: o Viés de Confirmação vem da falta de Flexibilidade Cognitiva.
A Neurobiologia do Filtro Seletivo: Circuitos e Atenção
Para compreender o Viés de Confirmação em nível biológico, vamos entender os neurotransmissores e a lógica das redes neurais que governam a Cognição.
O cérebro humano processa estímulos externos por meio de um processo de retroalimentação contínuo entre o processamento bottom-up (orientado pelos dados sensoriais brutos – a informação que nos chega) e o processamento top-down (dirigido por conceitos, memórias e expectativas – que estão na nossa mente).
Um exemplo: em pacientes diagnosticados com depressão maior ou transtornos de ansiedade, o processamento top-down assume um estado de superatividade crônica. Ou seja, ignora boa parte dos dados sensoriais do ambiente que lhes chegam. Isso causa um ciclo de confirmação do estado emocional, depressivo ou ansiogênico.
Quando um estímulo ambíguo é registrado, o córtex pré-frontal, o diretor executivo do cérebro, recruta redes neurais associadas em autoesquemas (“visão de mundo”) disfuncionais. Em vez de analisar o dado de maneira imparcial, o sistema realiza uma amostragem seletiva da informação.
Daí sistemas como o circuito da dopamina, que controlam a motivação de incentivo (o nosso “querer”), passam a disparar apenas para os indícios que validam a sua dor interna, ou o que queremos confirmar.
A amígdala, responsável pelo processamento emocional do medo e da ameaça, começa a trabalhar para disparar respostas emocionais de acordo com o que a pessoa pensa e, com isso, ela faz uma busca seletiva no ambiente. Essa busca seletiva é enviesada pelo que sente, criando uma Atenção Seletiva. Ou seja, o foca fica seletivo para o que se pensa e sente, não para os dados reais vindos do ambiente.

E com esse mecanismo ativado, as informações neutras ou positivas são praticamente inibidas ou descartadas, impossibilitando a atualização da visão de mundo da pessoa.
Lembre-se, a explicação acima reflete alguns fatores, a mente é multifacetada. Cuidado com o reducionismo da Neurobobagem.
E como mudar nosso Viés de Confirmação?
Toda capacidade humana pode ser treinada, inclusive nossa Flexibilidade Cognitiva (capacidade de adaptar o pensamento e o comportamento).
Se você anda sofrendo com o seu Viés de Confirmação, eu recomendo fortemente que busque ajuda profissional de um bom Psicólogo. Agora, se é só uma pessoa curiosa sobre seu funcionamento mental, aqui vai algumas ideias pra você flexibilizar seu viés de confirmação.
- Tente entender de onde vem o seu conhecimento: Analise se o que está confiando fortemente como verdade vem de uma fonte confiável ou é apenas uma convicção ou um sentimento muito forte que tem sobre a crença.
- Busque outra forma de entender a situação, ou uma opinião contrária: Em quase tudo que cremos no mundo, vai ter alguém que pensa o oposto. Então se pergunte: “O que essa pessoa vê, ou entende que eu não consigo ver/entender na situação?”.
- Diversifique suas fontes de informação: Nada de ficar na bolha de informações. Flexibilidade Cognitiva promove saúde mental. Aqui no caso, você pode ler artigos, assistir a vídeos e conversar com pessoas que pensam diferente de você.
- Teste de realidade: Analise os dados primeiro, forme sua opinião com base nas evidências gerais, em vez de buscar os dados depois de já ter tomado uma decisão, para confirmar o que pensa.
Agora lanço um desafio para vocês analisarem em si mesmas (os). Vamos usar duas grandes fontes de brigas, discussões e Vieses de Confirmação. Leia com calma a tabela abaixo e veja como você age em relação a esses dois pontos críticos da nossa vida social:
| Onde acontece? | Mecanismo de Filtragem (Top-down) | Comportamento de Manutenção | Consequência e Cristalização |
| Polarização Política nas Redes Sociais | A pessoa adota uma ideologia como parte de sua identidade central. Dados que contradizem seu espectro político disparam o circuito da “dor” na amígdala. | Consumo exclusivo de páginas, perfis e portais que validam seus preconceitos políticos. Algoritmos monetizam essa busca por consistência e filtram o feed. | Cristalização de bolhas cognitivas impenetráveis, cria o viés de confirmação. Oposição é vista sob o erro de atribuição fundamental (como desonesta ou incapaz). |
| As redes sociais | A pessoa tem uma crença de vulnerabilidade ou doença. O cérebro passa a buscar informações sobre o tema. | Conteúdo compulsivo sobre o tema. A pessoa consome fragmentos de informações. Com essa sobrecarga passa a ignorar dados científicos, pois acredita mais no algoritmo. | Ilusão de competência (efeito Dunning-Kruger). A pessoa assume uma identidade patológica fixada, blindando-se contra a verdadeira reestruturação clínica. |
Os exemplos da tabela demonstram como o mesmo processo neurobiológico que opera no grande debate público rege as pequenas tomadas de decisão na rotina privada, como as redes sociais. Nossa mente, em ambos os casos, prefere o conforto de uma falsa certeza ao custo metabólico e emocional de atualizar seus próprios modelos de mundo.
Concluindo…
O Viés de Confirmação não tem relação com Inteligência. O químico Linus Pauling, ganhador de dois prêmio Nobel, acreditava que a alta dosagem de vitamina C era benéfica, inclusive até para tratar o câncer. E ele estava errado, era seu viés de confirmação atuando. Então tá tudo bem a gente também cair no golpe do viés de confirmação.
O viés de confirmação é apenas um mecanismo biológico de preservação de consistência interna que, quando fora de contexto, sabota a saúde mental e os relacionamentos. Desenvolver a Flexibilidade Cognitiva exige método, treino e a disposição de colocar as próprias certezas à prova.
Psicoterapia comigo (Online e Presencial)
Referências Bibliográficas
Sugestão de livro: Ciência Psicológica Leitura recomendada.
- Matlin, M. W. Psicologia Cognitiva. Rio de Janeiro: LTC.
- Sternberg, R. J.; Sternberg, K. Psicologia Cognitiva.
- Dicas para a quarentena 02: Víes de confirmação
Imagem de capa adaptada de: mverzaro.com.br, que acho que copiou daqui: jamesclear.com
