Por que Psicólogos não podem usar o Coaching?

Bruno Marinho de Sousa

Em outro texto do blog apontei as diferenças e semelhanças entre Coaching e Psicoterapia. A principal diferença era que a Terapia focava em melhorar quem estava com problemas, não trabalhando aspectos positivos e melhoria de Qualidade de Vida.

Resultado de imagem para coaching + psychologyJá o Coaching é um processo que auxilia você a desenvolver e/ou melhorar habilidades, competências, capacidades, ampliar o conhecimento e etc. Ele possibilita o seu Desenvolvimento Pessoal, com foco na Qualidade de Vida. Dessa forma, o Coaching (que não é uma área ou abordagem da Psicologia foge um pouco da visão tradicional do Psicólogo que geralmente trabalha com problemas, pois permite que a pessoa busque se desenvolver.

Em 2016 o Conselho Federal de Psicologia – CFP lançou uma nota sobre Coach e Psicologia. Essa nota ficou bastante superficial sobre essa discussão. Por exemplo, O CFP entendeu que escola de formação de Coaches, Sociedade Brasileira de Coaching, é uma instituição como a Sociedade Brasileira de Psicologia

O Coaching (processo) trabalha o comportamento humano, então é perfeitamente aceitável que o Psicólogo atue nisso. A profissão de psicanalista também não é reconhecida, é entendida como uma ocupação. Mas o CFP não emite nota alguma contra isso. Dúvida? Leia mais aqui:

O que existe é uma falta de discussão fundamentada do CFP sobre como o psicólogo pode trabalhar com Coaching. E, principalmente, uma falta de visão sobre as possibilidades que o Psicólogo tem sobre esse campo de atuação. O mercado de Coaching, em 2009, foi estimado em US$ 1,5 bilhões (nos Estados Unidos). E, ainda, 93% das 100 maiores empresas de lá contrataram serviços de Coaching.

Então em vez de limitar os psicólogos, o CFP deveria estabelecer critérios para o trabalho do psicólogo como Coaching, por exemplo:

  • estabelecendo um nome diferente: Coaching Psicológico;
  • definir o que seria isso (atribuições, limites do trabalho, etc.);
  • Cursos de Formação reconhecidos pelo CFP;
  • Formas de divulgação do trabalho;
  • Transformar isso em uma especialização e etc.

Mas o CFP vai na contramão e limita ainda mais a atuação do Psicólogo no Brasil. O serviço de Coching. Essa minha opinião também é compartilhada pelo Conselho Regional de Psicologia do Paraná, em que aponta:

“Simplesmente desconsiderar o avanço científico e o reconhecimento da sociedade das estratégias e benefícios do coaching alegando que não se trata de um método vinculado aos princípios, procedimentos, métodos e técnicas da Psicologia é contribuir para a desregulamentação da profissão e desconsiderar a preparação da(o) Psicóloga(o) para trabalhar com o comportamento humano.”

E quando um psicólogo tenta trabalhar com Coaching e Psicologia ele é advertido ou punido (por esse texto e o anterior vocês podem perceber que é extremamente viável se trabalhar com isso). A alegação é que “o(a) Psicólogo(a) deve buscar o embasamento científico das técnicas e procedimentos utilizados e verificar a validação científica das mesmas.”

Muito legal, não? Mas quando você vai atrás de uma possível lista de técnicas e procedimentos possíveis para que nós psicólogos possamos usar, nos deparamos com isso:

“1) Existe uma lista de técnicas reconhecidas pelo CFP?
O Código de Ética Profissional do Psicólogo (Resolução CFP Nº 10/2005) cita, em alguns de seus artigos, que o psicólogo não pode utilizar técnicas não regulamentadas ou reconhecidas pela profissão.

Esclarecemos, no entanto, que não há uma lista de técnicas/práticas reconhecidas pelo Sistema Conselhos de Psicologia. Assim, quando falamos em práticas reconhecidas, nos referimos ao reconhecimento advindo da ciência, que é desenvolvido na academia e por meio de pesquisas.

[..]a partir do momento em que uma técnica desenvolvida pela ciência passa a compor o repertório profissional dos psicólogos, ela passa também a ser objeto de orientação e fiscalização do Sistema Conselhos de Psicologia.

Ou seja, eles fiscalizam algo que não tem um parâmetro a ser seguido porque “não há uma lista de técnicas/práticas reconhecidas pelo Sistema Conselhos de Psicologia”  (grifos meus). Mas o interessante é que existe uma tese (doutorado) que associa Coaching e Psicologia. Uma tese de doutorado é um trabalho científico.

O título da tese é “Coaching Analítico-Comportamental: Estudos sobre a efetividade de Coaching feito por um analista do comportamento“, desenvolvida pelo professor Dr. Nicomedes Borges. Essa tese é de 2015 e aponta:

“Esta tese teve como propósito geral aproximar esta prática aplicada, o coaching, e este campo do saber, a Análise do Comportamento, defendendo que ambos têm a ganhar com esta aproximação” p. 176).
“Os resultados indicaram evidencias positivas para todos os objetivos, ou seja, que o coaching feito por um analista do comportamento foi efetivo para ambos os objetivos, promover ‘engajamento para a aposentadoria’ e ‘autonomia de pensamento’. Além disso, os resultados sugerem que a ‘To do’ é uma técnica/ferramenta útil para evocação de comportamentos que indicam comprometimento com os objetivos” (p. 177).

Essa tese foi realizada na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), no Programa de Psicologia Experimental: Análise do Comportamento. Mas o CFP ignora isso, pois sua “nota” é de 2016, posterior a tese. E não considera uma tese como base científica para a mudança em relação ao Coaching.

Negative Thinking, Positive Thinking

Por que a Psicologia trabalha com foco em problemas e não em melhorias?
Um dos motivos é histórico, conforme apontei no texto Psicologia tem relação com Coaching? E Nicomedes aponta, em sua tese, que a Psicologia geralmente é baseada na Teoria da Maçã Ruim (“Theory of Bad Apple”), com foco em resolver problemas e não promover a saúde. Mas há uma corrente que busca uma prática de melhoria constante, não apenas resolver problemas psicológicos, é a Teoria do Aperfeiçoamento Contínuo (“Theory of Continuous Improvement”).

Se quiser entender melhor esse debate, leia essa entrevista com o professor Dr. Nicomedes Borges, para o site Comporte-se ou então sua tese de doutorado.

Entendem a confusão? Uma tese é trabalho científico, pautado em métodos científicos. Entretanto o CFP não reconhece o Coaching para os psicólogos.

Então, por que as psicólogas e os psicólogos não podem usar Coaching?
Porque não há um debate profundo sobre essa questão. Dessa forma, nós psicólogos não podemos nos valer de nossa formação e do nosso embasamento científico para atuar nesse mercado. Pelo menos não nos apresentando como psicólogos.

O Coaching Psicológico, ao contrário da visão do CFP, e a favor da visão da Psicologia Positiva e do CRP do Paraná, serve para desenvolver habilidades e competências, melhorar o bem estar e a qualidade de vida. Tudo isso tem a ver com a Psicologia e se vale de seus pressupostos teóricos e ferramentas. Nada além disso.


Leia mais:

Imagens: Coaching (Google Imagens), Negative Thinking, Positive Thinking (ShutterStock)

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