Comida, cérebro e comportamento

Bruno Marinho de Sousa

• O que seus hábitos alimentares têm a dizer sobre você?
• Qual a relação entre o que você come e os problemas que você tem?
• E o que você come pode manter os seus problemas?

Já foi amplamente divulgado na impressa que hoje no Brasil temos mais pessoas acima do peso do que magras. Atualmente a porcentagem de pessoas acima do peso está em 56,9%, o equivalente a 82 milhões de brasileiros. Não vou focar aqui em aspectos estéticos de estar acima do peso, pois esses são impostos pela cultura. Vou apontar o quanto uma dieta hipercalórica, porém não balanceada em nutrientes, pode ser prejudicial.

Vocês já ouviram falar do Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH)? Esse transtorno afeta cerca de 4% da população1 de crianças e adolescentes ao redor do mundo, sendo que esse percentual varia conforme o país. As principais características do TDAH são:

• Falta de habilidade/capacidade de manter atenção,
• Impulsividade,
• Nível de atividade muito alto (“elétricas”),
• Dificuldades acadêmicas (devido a inabilidade em manter a atenção),
• Dificuldade sociais (as pessoas podem evitar quem tem o transtorno).

Os sintomas do TDAH são bem característicos em quem tem o transtorno, pois a pessoa não mantém a atenção em qualquer coisa, não apenas em algo específico. Ela pode ser “avoada”, pular de atividade em atividade sem terminar nenhuma. O tratamento em geral é baseado em medicação, psicoterapia e acompanhamento escolar (em crianças e adolescentes).

Bem, mas e qual a relação do TDAH com comida?

Alguns estudos encontraram que dietas de baixa qualidade são associadas com os sintomas do transtorno (os pioram) e que, uma dieta balanceada pode diminui-los (ou controlá-los). Uma dieta balanceada se refere a uma alimentação regular, com frutas, verduras, baixo consumo de açúcar e alimentos industrializados (bolachas, refrigerantes e afins). Para você ter ideia da importância de diminuir esses alimentos industrializados ricos em açúcar, outro estudo apontou que evitar o café da manhã ou substituí-lo por bebida açucarada, afeta a atenção e a memória!

Original Idea: Food For Thought. Symbol Of Some Ideology.A dieta balanceada para todos nós é importante porque fornece os nutrientes necessários para um melhor funcionamento cerebral. Lembre-se, nosso cérebro funciona pra gerar nossa consciência, percepção, avaliar nosso ambiente, nossas emoções, pensamentos, controlar nossos comportamentos. Para isso ele gasta energia e precisa de neurotransmissores que são produzidos a partir do que comemos.

Voltando ao TDAH, a impulsividade e o sofrimento emocional causado pelo transtorno pode fazer com que as pessoas busquem alimentos ricos em gordura e/ou açúcar como forma de aliviar suas emoções. Isso ocorre até em quem não tem o transtorno, mas pode estar com sobrepeso e obesidade. A comida funciona como uma válvula de escape ou automedicação.

sorvete

Lembra-se da associação entre pensamento, comportamento e emoção, do modelo da Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC)? Isso pode levar a um ciclo vicioso, em que a pessoa se sente mal, come algo calórico para se aliviar emocionalmente, se sente mal…

ciclo vicioso

Uma pesquisa realizada por cientistas da Universidade de Barcelona, e publicada em 2017, mostrou que existe uma associação2 entre a dieta mediterrânea e menos diagnósticos de TDAH. Os cientistas encontraram que uma baixa frequência em consumir frutas, vegetais, arroz, massas, peixes e uma alta ingestão de fast-food, açúcar, doces, refrigerantes e evitar o café da manhã, está correlacionado a uma alta prevalência de TDAH. Mais importante ainda, o não seguimento de uma dieta balanceada, como a do Mediterrâneo, pode influenciar negativamente o curso do transtorno.

Levando isso para a clínica, basta você pensar no porque está engordando. Olhe a figura com o ciclo novamente, ela faz sentido na sua vida? Provavelmente sim, seguir dieta é muito difícil. E você dificilmente tem TDAH (lembre-se, são só 4% da população). O problema é que o ciclo da alimentação como válvula de escape serve para todos nós. Se você está indo bem na dieta e a fura um dia, sente-se mal, exagera, perde o foco dos seus objetivos, desanima, tudo isso se traduz em sentimentos negativos. Esses podem ser momentaneamente aliviados com a comida calórica, mas depois te deixam mal, e te mantém no ciclo (comportamentos sabotadores).

Mas não é só isso que te faz engordar, pois isso é um processo multideterminado, influenciado por fatores ambientais, psicológicos, fisiológicos, emocionais e agentes químicos. A melhor forma de tratamento para doenças, transtornos ou problemas multideterminados é a multidisciplinariedade (vários profissionais). Ou seja, é você consultar com um médico, no caso um endocrinologista, ter uma dieta adequada ao seu padrão de vida que seja formulada por nutricionista ou nutrólogo, manter um atividade física regular, ter acompanhamento psicológico (afinal, fazer dieta e mantê-la é um comportamento).

Então não busque e acredite em soluções mágicas da internet. SE alguma funcionasse, não existiriam uma centena delas. Procure ajuda profissional adequada e especializada. Cuidar da sua saúde é para a vida toda.


Leia mais:


  1. Existe uma “moda” em diagnosticar crianças que não prestam atenção nas aulas e são mais ativas que a média. A discussão sobre isso não cabe no texto. Mas é importante frisar que o diagnóstico deve ser feito por um profissional capacitado: pediatra, psiquiatra, psicólogo – preferencialmente neuropsicólogo, ou, melhor ainda, equipe multidisciplinar. 
  2. Cuidado: o estudo mostrou uma correlação (estatística). Isso quer dizer que uma coisa influencia a outra, não que uma coisa CAUSA a outra! Ou seja, não dá para afirmar que uma dieta inadequada provocou TDAH nas pessoas, nem que o transtorno as faz comer mal. Apenas que uma dieta equilibrada ou não pode influenciar os sintomas e indicar um diagnóstico. 

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