A Solidão e o Isolamento Social são perigosos para a Saúde Mental

Bruno Marinho de Sousa

Todo o inferno está contido nesta única palavra: solidão (Vitor Hugo)

A Solidão é perigosa: em tempos de Isolamento Social ela pode piorar sua Saúde Mental. No texto vou abordar a Solidão fora dos tempos de Isolamento Social e Quarentena, mas as informações podem ser utilizadas para analisar esse período.


A Solidão te afeta? Às vezes rodeado de pessoas você se sente desconectada (o) das pessoas ao redor? Ou às vezes torce para que todo mundo ao seu redor saia de perto para você ficar sozinha (o) e ter um pouco de paz? Às vezes te dá vontade de morar no meio do mato, nas montanhas, no deserto, sem ninguém para evitar o desgaste do convívio com as pessoas?

No cinema ficar sozinho quase sempre irá trazer problemas para a personagem, como nos filmes Náufrago, Eu Sou a Lenda, Na Natureza Selvagem, Solaris, Wall-E, Taxi Driver… E você já pensou em viver isolado? Sabe a diferença entre Solidão e querer estar sozinha (o)?

O que é Solidão?

Solidão descreve os sentimentos negativos que podem ocorrer quando suas necessidades de conexão social não são atendidas (Fonte: HealthLine)

A Solidão então pode ser real, baseada em um isolamento social, ou percebida, baseada numa sensação/sentimento que a pessoa tem em relação ao mundo, mesmo tendo pessoas próximas. No texto é abordada a Solidão prolongada, que dura meses ou anos. É normal, e até saudável, termos um tempo só para nós mesmos, isso nos ajuda a relaxar, por as “ideias no lugar” e até recarregar as energias.

A Solidão tem um forte componente psicológico e é deles que iremos abordar na parte Tratamento nesse texto. Diversos estudos mostram a Solidão gera vários efeitos nocivos no corpo (lembre-se a separação “mente-corpo” é didática).

Por que e como a Solidão faz mal?

Diversos estudos mostram que existe uma relação entre morbidade e relacionamentos sociais. Aqui vou citar alguns para tentar dar a dimensão do quanto isso é forte.

Um estudo liderado por Nicole K Valtorta, da Universidade de York, fez uma meta-análise* para investigar a associação entre solidão (ou isolamento social) e a incidência de acidente vascular cerebral (AVC) e doença arterial coronariana (DAC). O estudo fez também uma análise longitudinal, que é feita analisado o fenômeno ao longo dos anos. O que descobriram? Há um aumento de 29% no risco de DAC e 32% no risco de AVC para as pessoas com baixas relações sociais (independente do gênero). É um aumento muito grande!

Vamos analisar as implicações desses dados. Os autores apontam, e faz todo sentido, que a Solidão ou o isolamento social é um problema de Saúde Pública. Uma das maiores causas de morte no mundo é o AVC! Então avaliar a solidão e “tratá-la” deve ser parte das estratégias de prevenção do AVC e da DAC! As pessoas que estão ou se sentem isoladas, ou solitárias, se envolvem mais em comportamentos prejudiciais, como fumar e sedentarismo. Dessa forma, as estratégias para cuidar da Solidão envolvem promover resiliência, contatos sociais, grupos de apoio, Terapia Cognitivo-Comportamental (não estou puxando saco para essa abordagem, são os autores que apontaram isso…).

Outros estudos mostram que a solidão pode aumentar a mortalidade em até 4 anos! Um jovem solitário, em comparação com outro que vive com outras pessoas, tem uma maior mortalidade. Ainda, um jovem solitário tem 9% mais chance de morrer que um idoso com amigos.

Ainda achou pouco? Um estudo que avaliou dados de mais de 3 milhões de pessoas (com menos de 65 anos) concluiu que a solidão pode elevar até em 32% a chance de uma morte prematura. Para entender por outra perspectiva, é o mesmo que fumar 15 cigarros por dia, ou ser alcoolista ou ter obesidade.

Além disso, um estudo suíço apontou uma ligação entre solidão e aumento no risco de: doenças crônicas, estresse, diabetes, depressão e até colesterol alto. Também mostrou associação com um estilo de vida pouco saudável, independente do sexo da pessoa. Isso foi observada em diferentes faixas etárias.

Já o BBC Loneliness Experiment teve cerca de 55 mil participantes no mundo todo. Ele foi realizado por meio de um questionário online. O interessante que muitas pessoas associam Solidão à velhice. Mas o estudo mostrou que as taxas mais altas estão entre os jovens entre 16 a 24 anos, que chega a 40%!!! Já nas pessoas com mais de 75 anos essa taxa é de 27%. Nessa porcentagem estão as pessoas que se declararam sentir-se sozinhos com frequência ou muita frequência.

Umas das explicações para a maior taxa de Solidão entre os jovens é que as pessoas nessa faixa etária podem ser mais abertas a assumirem isso. Nos estudos os mais velhos apontaram que se sentiam mais sozinhos no início da vida adulta. Uma observação pessoal: a geração mais jovem se abre mais sobre sentimentos que as anteriores. Por isso hoje em dia os jovens relatam mais seus sentimentos, reclamam mais por sofrerem, o que as gerações antigas não faziam.

Outras explicações que apontam essa maior solidão no início da vida adulta são as mudanças naturais: sair de casa (estudar ou trabalhar), mudar o círculo de amizades (não tem mais o contato direto com os colegas de escola), ter que se adaptar com as responsabilidade da vida adulta (pagar boletos, horários, cobranças). E, talvez o principal: aprender a lidar com a solidão, muitas vezes pela primeira vez.

E o tratamento psicológico para a Solidão?

Neuroscientists with a giant chart of human brain and a heart icon
Imagem: FreePik, por @rawpixel.com

Avaliação

Em qualquer trabalho de intervenção a primeira coisa a se fazer é uma Avaliação Psicológica ou outro tipo de análise da demanda. Isso pode ser feito por meio de Entrevistas, aplicação de Instrumentos Psicológicos, relatos de pessoas próximas, análise de documentos, etc. A partir disso obtém-se informações que explicam o motivo da Solidão, como ela se desenvolveu e, principalmente, como ela se mantém. Depois é feito um Plano de Trabalho, ou Projeto Terapêutico. E o mesmo é executado.

Então a primeira coisa é avaliar os sintomas da Solidão, dentre eles se destacam: diminuição da energia, dificuldade de concentração, insônia, mudança de apetite, dores pelo corpo (sem motivo aparente), ansiedade e cansaço, comprar demais, abuso de substâncias (aqui entram os doces e comidas calóricas), aumento na vontade de assistir séries (maratonar), etc. E, claro, isso tudo só se aplica somente se a pessoa se sentir solitária.

Diagnóstico

Aqui estamos falando de Solidão crônica (a prolongada, que dura muitos meses ou anos). Trata-se de sentimentos negativos que podem ocorrer quando as necessidades de conexão social da pessoa não são atendidas. Lembre-se que isso pode ser real ou apenas percebido pela pessoa. A Solidão não se trata de uma condição específica. A antiga classificação Internacional de Doenças (CID), por exemplo, colocava o “Viver Só” (CID 10 – Z60.2), que entra nos Problemas Relacionados ao Meio Social.

A Solidão merece atenção porque não tem condições específicas, mas causa diversos problemas de saúde física e saúde mental, conforme vocês leram aqui no texto.

Tratamento

A Psicologia olha para a Solidão por uma perspectiva multifatorial. Aqui apresento apenas um exemplo em linhas gerais. O tratamento variará conforme sua demanda e a linha de raciocínio do psicoterapeuta. Como a Solidão afeta vários aspectos orgânicos, é importante e fundamental uma avaliação médica. Basicamente o tratamento psicológico envolverá aprender a lidar com os sentimentos de Solidão e suas consequências (primárias e secundárias). Mas tudo vai depender do que a causa, não tem fórmula ou receita específica. O tratamento vai abordar:

Durante o tratamento é muito importante trabalhar a forma como a pessoa pensa sobre seu lugar no mundo. A pessoa que sente Solidão pode desenvolver Crenças, Regras ou Autorregras (o nome vai variar com a Abordagem Psicológica) que a faz focar mais nos aspectos negativos da interação social. Isso a faz se lembrar mais dos pontos negativos do que dos positivos, gera sentimentos de inadequação (mais percebidos que reais).

Espero ter ajudado!


Leia mais:

  • Veja as indicações sobre Psicologia e Neurociências aqui: Indicações

Reportagens em português:

Em inglês (artigos científicos usados no texto e reportagem):

* “Uma meta-análise visa extrair informação adicional de dados preexistentes através da união de resultados de diversos trabalhos e pela aplicação de uma oumais técnicas estatísticas“. Fonte: Luiz, A. J. B. (2002). Meta-análise: definição, aplicações e sinergia com dados espaciais. Cadernos de Ciência & Tecnologia, 19(3), 407-428.

Imagem destacada: Freepik, por @holaillustrations

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